Arco e flecha indígena: resgate cultural e autoestima

13 de outubro de 2013 - Artigo de Virgílio Viana, Superintendente Geral da Fundação Amazonas Sustentável (FAS)

 

 

Um dos principais desafios do Brasil para a Olimpíada do Rio de 2016 é ganhar um nUmero de medalhas a altura da posição que o país ocupa no cenário internacional. Somos a sétima economia e a quinta maior população do mundo. Em Londres, ficamos em 22º lugar no ranking de medalhas. Não se trata apenas de ficar “bem na foto”: investir em esporte tem impactos positivos na formação das pessoas e no processo de desenvolvimento das sociedades humanas.

Dentre as muitas modalidades olímpicas uma merece especial atenção: arco e flecha. Nenhuma outra modalidade se relaciona de forma tão clara e óbvia com a história do Brasil e da Amazônia. As populações indígenas habitavam todo o território nacional à época da chegada dos europeus. Foram dizimadas por guerras, escravidão e doenças. Temos uma dívida histórica a ser resgatada.

O Brasil possui hoje mais de 300 etnias e uma população de cerca de 900 mil indígenas. Existem ainda mais de 50 grupos isolados, ainda não contatados, no interior da Amazônia. De maneira geral, a situação das populações indígenas do Brasil é muito ruim, infelizmente. Os elevados índices de suicídio de diversas etnias atestam de forma eloquente uma trágica realidade. A autoestima das populações indígenas é baixa, fruto da pobreza, preconceito e exclusão social. Os índices de alcoolismo são elevadíssimos. O acesso à saUde e educação está entre os piores do país. Predomina a desesperança.

A boa noticia é que existe um movimento de fortalecimento da cultura indígena, incluindo promissoras iniciativas de educação bilíngue e de resgate de tradições culturais. Existem também projetos bem sucedidos de geração de renda baseados no uso sustentável dos recursos naturais. Muitas populações indígenas possuem grandes reservas oficialmente reconhecidas e demarcadas. Para muitas etnias já é possível ver uma luz no fim do tUnel.

Crianças indígenas aprendem a manusear o arco e flecha ainda na infância. Os adolescentes já caçam com maestria, alguns alcançando pássaros em pleno voo, como araras. Não teriam eles mais chances de conquistar o ouro olímpico do que jovens urbanos da Coréia ou da RUssia?

Há muito tempo venho pensando numa proposta simples e ousada: um projeto para conquistar o ouro, a prata e o bronze olímpicos com jovens indígenas! Já temos o principal: o elemento humano. Falta apenas agregar a isso o necessário planejamento e apoio técnico, financeiro e institucional. Trata-se de um projeto que deve unir empresas privadas seriamente comprometidas com o esporte olímpico, governos e organizações da sociedade civil, especialmente aquelas que representam as populações indígenas. Essa união de esforços deve agregar os profissionais do mais alto nível na área do esporte e as organizações desportivas. Temos uma oportunidade Unica com a Rio 2016!

Em março de 2013 demos um passo importante. Lançamos a Escola de Arquearia Floresta Flecha e o Projeto de Arquearia Indígena e Ribeirinha do Amazonas na Rio 2016. Trata-se de uma parceria envolvendo a Federação Amazonense de Tiro com Arco; a Secretaria Estadual de Juventude, Esportes e Lazer; a Secretaria Estadual dos Povos Indígenas e a Coordenação dos Povos Indígenas do Amazonas. ? o primeiro passo de uma longa jornada… Apesar de olharmos para 2016, devemos ter um olhar de longo prazo, mirando as futuras olimpíadas.

O sucesso desse projeto não é apenas um caminho a mais para a necessária conquista de medalhas olímpicas. Será uma inestimável contribuição para resgatar uma divida histórica que temos com as populações indígenas. Terá um enorme impacto positivo para a autoestima e o futuro das populações indígenas de todo o Brasil.

Artigo publicado no Jornal Diário do Amazonas, em 22 de agosto de 2013

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