Projeto Incenturita leva espetáculo de teatro a ribeirinhos da floresta

22 de novembro de 2016 - Alunos do Núcleo Assy Manana, em Três Unidos, encerraram o 3o módulo do projeto Incenturita com espetáculo de teatro às margens do rio

 

Por Mariana Filizola

Fotos: Luiz Maudonnet

“Se eu estou nervoso? Muito. Mas acho que a maquiagem e a fantasia vão ajudar um pouco”. Braian Menezes, de 17 anos, não escondia a ansiedade e a alegria em subir ao palco pela primeira vez. Antes considerado um dos alunos mais problemáticos da escola, Braian se concentrava para interpretar um dos clowns, narradores do espetáculo e um dos papeis mais divertidos da noite. “Eu era muito tímido, tinha dificuldade de conversar”, afirma. “Hoje minha relação com as pessoas mudou muito. Tenho mais vontade de ouvir as histórias dos outros, conversar mesmo. Me sinto mais maduro. Descobri uma sensibilidade em mim que não sabia que tinha” contou, enquanto vestia a fantasia”.

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Braian Menezes e Javer Alcântara, os clowns do espetáculo

Braian é um dos 23 atores do Projeto de Incentivo à Leitura e Escrita (Incenturita), que se apresentaram em um espetáculo inédito no Ultimo sábado (19), na comunidade de Três Unidos, na Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Negro. O projeto faz parte do Programa de Educação e SaUde (PES) da FAS e conta com apoio da Samsung, Bradesco e Instituto Alair Martins (Iamar). Em um grande palco montado na praia, às margens do Rio Cuieiras, o espetáculo encerrou o 3º módulo do Projeto com uma produção digna de grandes teatros. Iluminação cênica, sonoplastia e um roteiro especial – criado pelos alunos e pelo professor durante as aulas da iniciativa. “Os alunos tiveram que ler bastante pra entender como construir um personagem. O que ele sente, como descrever e como interpretar isso”, explica Adriano Rodrigues, responsável pelo projeto de Arte-educação.

Segundo ele, preparar o espetáculo desenvolveu a leitura e escrita de forma divertida. “O teatro permitiu que eles se expressassem, trocassem ideias e também desenvolvessem a interpretação de texto, analisando as personagens e histórias dos livros. Foi uma forma de incentivar a leitura de um jeito lUdico”, completa.

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Atividades de consciência corporal durante os ensaios do espetáculo com o professor Adriano Rodrigues

Durante os três módulos do Incenturita desenvolvidos ao longo do ano, os alunos tomaram gosto pela leitura e também pela arte de interpretar. Vindos de comunidades próximas a Três Unidos, a cerca de uma hora e meia de Manaus, muitos deles nunca viram a encenação de uma peça de teatro. Apesar disso, a paixão pela atuação foi imediata com a chegada do professor à comunidade.

“Eu nunca tinha pensado em atuar na vida. Pensei que fosse algo chato, mas quando vi o trabalho do professor Adriano, a empolgação com que ele falava sobre teatro, quis ser parte disso”, conta a aluna Brenda Menezes, de 14 anos. Para ela, entender o personagem para atuar desenvolveu sua própria forma de se expressar.

“A gente estudou muito sobre os personagens. Antes só líamos, mas não sabíamos interpretar, o modo de falar, o tom da voz, os sentimentos. Ler mais foi bom para conhecer novas palavras mas principalmente para aprender a expressar melhor o que sinto”, afirma.

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Brenda Menezes durante o ensaio

Desenvolver o diálogo e expressar sentimentos fora da sala de aula foi uma grande conquista para os jovens. O teatro ensinou a comunicar de forma diferente, com mais paciência. Em sua maioria com idades entre 12 e 17 anos, para eles, conversar com os pais deixou de ser um drama.

“Atuar ajudou a dialogar com nossos pais, principalmente no segundo módulo, quando interagimos com eles em algumas atividades de teatro aqui”, destaca a aluna Michelle Maciel, de 16 anos. “Coisas que eu não falava em casa, consegui falar aqui. Foi emocionante”.

A noite, todos esses pais estavam na platéia, além de outras dezenas de comunitários dos arredores de Três Unidos, vindos especialmente para a apresentação. Representantes do Iamar, um dos apoiadores do Incenturita, também estavam presentes, além de veículos da imprensa que realizaram a cobertura do espetáculo. Pontualmente às 20h, luzes, fumaça e o som cuidadosamente ensaiado abriram o espetáculo. A concentração da estreia dos atores nos bastidores, em conjunto com o figurino e maquiagem tomou ares grandiosos no imenso palco iluminado. Por um momento, quase se esquecia estar à beira do Rio Cueiras, em meio à floresta.

A primeira parte do espetáculo revelou o lado cômico dos atores, tratando sobre descarte correto por meio da divertida história do personagem Recicláudio. A segunda e Ultima parte da apresentação contou a história de Iaçá, o mito do açaí, e revelou coloridos adornos indígenas e a emoção das atrizes mirins nas cenas mais tristes da história.

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A história de Recicláudio: consciência ambiental com humor em cena

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Cena da encenação da história de Iaçã, o mito do açaí

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Índias em cena na história de Iaçã

O desempenho dos alunos durante a peça foi além das expectativas do projeto: “Me surpreendi do início ao fim. Estava além do que idealizamos. O profissionalismo que eles levaram pra cena, a dedicação. Além de estarem alinhados com cada texto e mUsica… superou as expectativas”, afirmou Adriano, depois do espetáculo. Para ele, a transformação dos alunos e da forma com que se vêem foi um dos grandes méritos do teatro: “Eles começaram o projeto tímidos e agora estar no palco trouxe uma valorização Unica. O que mais mudou na vida deles foi a relação interpessoal, como eles se viam e como eles se vêem agora”, concluiu, emocionado.

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Javer Alcântara, da dupla de clowns do espetáculo, durante a maquiagem

Durante as apresentações, dois clowns interpretados pelos alunos Braian e Javer Alcântara divertiram a platéia enquanto comentavam as histórias. O nervosismo de Braian algumas horas antes do espetáculo desapareceu completamente. Sua desenvoltura e suas falas no palco arrancaram risos da platéia. Quanto mais o pUblico ria, mais ele parecia à vontade sob a maquiagem e a fantasia. Longe de parecer uma estreia, ele parecia fazer aquilo há muito tempo: “Estar no palco foi mais fácil do que eu imaginava!”, afirmou depois da apresentação. Já sem maquiagem, ele não escondia a empolgação pelo ano que vem.

“Foi muito rápido, quero mais”, brincou. O Projeto Incenturita retorna às atividades no próximo ano e pretende levar a leitura, a escrita e o teatro de volta a Três Unidos e a mais reservas do interior do Amazonas. “Se depender do esforço e da energia desses meninos, é só o começo”, afirmou Adriano.

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Braian e Javer em cena

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Alunos recebem certificado de participação no projeto ao fim do espetáculo

 

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