Segunda edição das Olimpíadas da Floresta leva emoção e renova sonhos na RDS do Uatumã

19 de setembro de 2017 - Por Dirce Quintino Quando as comunidades ribeirinhas são criadas no interior do Amazonas, o campo de futebol, ao lado das […]

 
Crianças do Maracarana campeãs da corrida de saco. Foto: Dirce Quintino

Por Dirce Quintino

Quando as comunidades ribeirinhas são criadas no interior do Amazonas, o campo de futebol, ao lado das igrejas, é uma das primeiras áreas que criam forma. Longe da internet e muitas vezes até da energia elétrica, é nele que crianças e adultos ocupam o seu tempo brincando e as relações sociais são fortalecidas. É no campo de futebol também que campeonatos são organizados, times são formados esperando a oportunidade de competir com outras equipes e assim sagrar-se campeão. Uma dessas oportunidades é a Olimpíadas da Floresta, evento que chegou a sua segunda edição na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, localizada a 237 km de Manaus, mais precisamente na comunidade Jacaréquara, vilarejo que abriga cerca de 100 famílias.

Nem o período de seca do rio Uatumã afastou mais de 230 competidores oriundos de bairros periféricos e comunidades da zona rural de Itapiranga que atracaram seus barcos e ataram suas redes na região, fazendo de um final de semana um momento único para celebrar o esporte nas modalidades corrida, corrida de saco, futebol, arco e flecha, vôlei, queimada, tênis de mesa, salto em distância e canoagem. A competição é voltada para jovens de 07 a 17 anos que participam do Programa de Desenvolvimento Integral de Crianças e Adolescentes Ribeirinhas na Amazônia (Dicara), da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), projeto apoiado pelo Bradesco e Samsung, que promove cidadania e proporciona acesso à informática, música, esporte e lazer por meio de cursos, além de orientações básicas de cidadania e atendimentos de saúde.

De acordo com o coordenador do Dicara, Ademar Cruz, as Olimpíadas representam o momento de encontro dos jovens do projeto. “É uma dedicação muito grande por parte dos atletas. Eles treinam o ano todo e essa é a oportunidade que esses jovens tem de competir e desenvolver o seu talento”, afirma. Ainda segundo o coordenador, organizar um evento como as Olimpíadas representa um desafio. “Realizar essas Olimpíadas na comunidade rural é tão desafiador quando organizar um evento na cidade, pois aqui você precisa trazer desde combustível para gerar energia até a alimentação para os jovens. Mas quando você vê o envolvimento dos voluntários e a alegria dos jovens competindo é algo muito gratificante e supera todos os desafios”, conclui.

Lendas locais serviram de inspiração para a cerimônia de abertura. Foto: Dirce Quintino

Já na abertura do evento no sábado (16), os jovens mostraram que estavam em busca de vitória. Desfiles sincronizados e ensaiadas apresentações culturais inspiradas em lendas locais marcaram a cerimônia de abertura e também já abriu o placar da competição dando ao Maracarana a medalha de ouro. A cerimônia de abertura teve ainda o simbólico momento do acendimento da pira olímpica, no qual um jovem caracterizado como pescador foi o protagonista da cena.

O esperado momento do sorteio dos confrontos ocorreu na manhã seguinte. A corrida de 100 metros abriu a competição aquecendo para em seguida começar a corrida de saco, onde as crianças do Maracarana reinaram absolutas conquistando quatro medalhas de ouro das seis disputas na modalidade.

Crianças do Maracarana campeãs da corrida de saco. Foto: Dirce Quintino

Pais treinadores e sonhos

Novidade desta edição, o tênis de mesa foi alvo de uma trajetória que envolveu a dedicação de uma família. Ao saber da modalidade na competição, Manoel Coelho, morador da comunidade São Francisco do Caribi, viu a chance de treinar os filhos para as Olimpíadas. Construiu uma mesa, comprou raquetes e bolas em Itapiranga e a partir daí começou uma rotina de preparação com as crianças nos horários livres da escola. A recompensa veio através pelas mãos da filha Larissa, 09, que apesar do pouco tamanho venceu fácil as adversárias chegando a primeiro lugar do pódio e também no futebol, onde levou a medalha de ouro jogando pelo time de 07 a 12 do Núcleo. Ainda em família, o irmão Marcelo, 11, conseguiu a medalha de bronze no tênis de mesa.

As conquistas dos pequenos só aumentaram ainda mais a vontade de Manoel de ver os filhos brilhando. “É uma competição interna, mas eu sonho poder levar eles para disputarem um campeonato nacional ou até mesmo chegar em uma Olimpíadas. As portas nunca estão fechadas, eles são jovens e eu sei que eles tem talento pra isso” afirma Manoel.

Manoel ao lado dos filhos e de Sabrina, uma das artilheiras do futebol Foto: Dirce Quintino

Em meio a tantos sonhos como de Manoel, as Olimpíadas da Floresta levaram a crianças e jovens a oportunidade de mostrarem um talento adormecido. O representante do Núcleo, Janildo Leite, 17, é um deles. No último ano de sua participação no Dicara, o jovem competiu em várias modalidades durante as Olimpíadas, mas foi no salto em distância que Janildo surpreendeu, pois foi onde conseguiu a impressionante marca de 4,98 metros. “Sonho em poder representar o Amazonas e o Brasil em alguma outra competição”, afirma o jovem.

Crianças comemoram vitória no futebol. Foto: Dirce Quintino

Apesar da competição ter tantos esportes, é com o futebol que as emoções vem mais à tona. Na disputa pelo título de campeão masculino 13 a 17 anos, o Maracarana bateu o time do Santa Luzia por 4 a 2 em um jogo emocionante que fez de Javé e Robson artilheiros da competição com 2 gols cada. No placar final da segunda edição das Olimpíadas da Floresta da RDS do Uatumã, a equipe do Maracarana saiu vencedora com mais medalhas de ouro, mas quando trata-se uma competição tão singular como as Olimpíadas da Floresta, onde crianças e jovens participam de um momento que muitas vezes chega a ser único em suas vidas, é que pode-se ver o quão importante o esporte pode ser fundamental na formação de jovens e ganhar é apenas um detalhe.

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