Além de doenças respiratórias, queimadas na Amazônia podem causar problemas cardíacos e neurológicos

6 de dezembro de 2018 - Impactos da poluição causada pelos incêndios florestais à saúde das pessoas foram debatidos durante encontro em Manaus. Objetivo é criar agenda de discussão e propor recomendações ao poder público

Além das já conhecidas doenças respiratórias causadas pelo contato com a poluição oriunda de incêndios florestais na Amazônia, a fumaça dessas queimadas também pode ocasionar problemas cardíacos e neurológicos à saúde humana. É o alerta que foi feito durante o seminário “Impactos da Poluição por Incêndios Florestais na Saúde Pública na Amazônia”, que reuniu especialistas em meio ambiente e saúde para discutir e propor soluções ao tema na sede da Fundação Amazonas Sustentável (FAS).

Um desses problemas neurológicos é a demência, segundo explicou o médico Euler Ribeiro, reitor da Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI), um dos participantes do seminário. “A demência vascular cerebral, a demência, é consequência da anoxia cerebral, que é a falta de oxigênio no cérebro. Se não tiver sangue oxigenando o cérebro em alto índice as células cerebrais morrem e se vê um declínio cerebral grande; e a inalação da concentração de gás carbônico na atmosfera causa essa anoxia”, disse

Tal contato com gases poluentes vindos das queimadas causa ainda os campeões de registro e bem conhecidos problemas respiratórios, sem falar na contribuição desse fenômeno ao aumento da temperatura global. De acordo com o médico e professor da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Saldiva, tais problemas, inclusive, serão mais comuns em populações amazônicas.
“As cidades na Amazônia vão ser as mais prejudicadas com as mudanças climáticas. As pessoas das regiões Norte e Nordeste do país também vão sentir mais com o aumento das temperaturas, do calor. Isso diminui a expectativa de vida, aumenta a mortalidade e os atendimentos em hospitais devido ao crescimento das doenças”, ressaltou Sadiva, que participou do seminário diretamente de São Paulo, em vídeo-chamada.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida no Amazonas é a sexta menor do Brasil. Conforme último balanço divulgado com dados do ano passado mostram que as pessoas vivem até os 72,1 anos no Estado, abaixo da média nacional de 76 anos e da maior esperança de vida, que é em Santa Catarina, aos 79,4 anos.
“A expectativa de vida no Amazonas difere para menos da expectativa de vida do povo brasileiro e isso tem consequência muito grande da destruição das florestas com as queimadas. As pessoas vivem menos. As crianças e os idosos estão mais suscetíveis à inalação dessas substâncias advindas das queimadas e que causa alterações agudas e crônicas nos sistemas respiratório e cardíaco que podem levar à antecipação da finitude”, reforçou o médico Euler Ribeiro.

Debates e recomendação

O seminário sobre impactos da poluição das queimadas à saúde humana é o primeiro passo de uma agenda de debates e eventos sobre o tema. Segundo o superintendente-geral da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), além da promoção de outro seminário, também estão em jogo a elaboração de um projeto e a criação de uma lista de recomendações que deverão ser enviadas ao poder público.

“O importante resultado desse evento foi identificar um caminho para que a gente possa fazer uma série de ações ao longo do próximo ano. A primeira é elaborar um projeto para aprofundar análise dos dados de queimadas e saúde pública; o segundo é fazer outro seminário com bastante densidade para reunir o estado da arte do conhecimento, não apenas de Manaus, mas no Brasil e no mundo. E a terceira é criar um conjunto de recomendações aos órgãos de governo federal, estadual e municipal para que possam lidar de maneira estratégica com o tema das queimadas”, disse.

Saúde e meio ambiente

A doutora Ilsa Valois Coelho, da Universidade Nilton Lins, falou da importância de se discutir os efeitos da poluição das queimadas à saúde das pessoas. “A proposta do evento é envolver vários aspectos sobre a poluição ambiental. Combater as queimadas é importante, mas também é preciso ir contra esses novos problemas. Em um dos nossos estudos contatamos, por exemplo, um aumento de problemas hospitalares e alérgicos causados por essa fumaça, sem falar que o nosso clima úmido favorece também. Então a discussão precisa ser interdisciplinar”, disse.

O diretor da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESA) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), dentista Diego Regalado, comentou sobre a necessidade de se produzir estudos científicos para encontrar soluções aos problemas das queimadas à saúde humana. “A partir da identificação desses problemas, as soluções precisam ser levantadas e todos os parceiros presentes aqui darem suporte para essas soluções serem colocadas em prática. Tem muita coisa a ser feita e precisa de muito mais discussão, envolvendo mais gente”.

Futuras ações

A realização de um próximo seminário sobre o tema está previsto ainda para o primeiro semestre de 2019 na Fundação Amazonas Sustentável (FAS). “É um tema que merece cada vez mais atenção em função do aumento da frequência de incêndios florestais. Tudo aponta para um cenário de agravamento disso em função das mudanças climáticas”, finalizou Virgílio Viana.

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